A
Oscar Niemeyer, por ocasião de sua morte.
Na casa onde morei, existiam
dois universos distintos: o dos adultos e o das crianças. Emburrava de ficar
sob o olhar diligente e dominador dos mais velhos. Um avô que fazia cartões de pêsames,
um tio que imprimia avisos fúnebres, uma prima a engomar as mortalhas da
família e uma tia a lustrar todos os caixões. Ah, se naqueles tempos a gente
tivesse um bom machado... O gosto do escuro, a falta de sede, a chave por
dentro... Longe daqueles fantasmas, fechava a porta e jogava a chave no mar. Apagava
a luz da sala que ainda brilhava por mim, numa vida aonde os maridos nunca
chegam tarde com gosto amargo na boca.
***
Meu pai lia romances policiais em voz alta e
passava a mão na minha cabeça. Parecia outra pessoa, era atenção e carinho.
Logo ele que não demonstrava afeto. Eu nunca o senti tão próximo, queria que
aquele momento se eternizasse. Até pensei como era um acalanto ter pneumonia. A
lembrança é forte, sinto-o tão perto que quase chego a tocá-lo.
***
A Rua Passos Manuel era a pátria da autonomia.
Para uma imaginação inflamada pelo desejo de tecer aventuras, a rua se
transfigurava. Tinha uma satisfação extrema em criar passagens secretas para
esconderijos mais secretos ainda. Longe das queixas da minha mãe que gritava
como a parir a última filha:
– Queria
descobrir qual é o segredo que tudo que faz é desmantelado. Venha colocar o
copo emborcado do jeito dos outros que é para você aprender. Quando eu reclamo
esses malfeitos, Ave Maria, mamãe é muito chata. Agora ser preguiçoso, boca
aberta e dorme em pé é maravilhoso!
Ouvia com o dedo perdido no ar. Riscava
formas no espaço, guardava-as na memória, corrigia e ampliava.
– O que está fazendo, menino?
– Desenhando paraísos.
***
Minha avó dizia que deus controlava as secas
e as chuvas, fazia os animais crescerem fortes, nascerem ramas nas plantas e não
termos doenças graves. Ele nos protegia da peste e da fome, do mau-olhado e do
fogo do inferno. Se não fosse pelo Nosso Senhor, a asma a mataria ou sua enxaqueca
a enlouqueceria. Quando de pertinho a olhava via que algumas rugas eram
postiças, terra mal enxuta do dilúvio.
***
Menino medroso atirava o pau no rato, quem
morria era o gato. Pernas para que vos quero? Édipo curioso de suas próprias
trevas, olhos cansados de buscar um sol continuamente adiado, subia nas
laranjeiras para espiar a família. Espantava os passarinhos fofoqueiros que
traziam ramos de espinheiro ao invés de oliva. Nem eu sabia o porquê daquele
capricho que com o tempo veio tumultuar o meu sono. Todo adolescente de cabelos
despenteados acredita que o dia vai amanhecer especialmente para ele.
***
Livros para ler, ruas por andar, mulheres a
possuir... Drummond me emprestava seu bigode e Capanema seu terno. Saia do Café
Lamas para endereços mais poéticos.
– Pedaços de criança, pedaços de homem! Um
ventinho qualquer e saí voando rumo a outra vida além do retrato – zombavam do
meu corpo franzino.
Procurava aquele laço de fita que mais
parecia uma borboleta nos cabelos. Os olhos negros entravam nos meus como
guirlandas de luas. Gostava de curvas porque aceitam invenção e
sensibilidade. Sempre fui atraído pelas curvas dos morros, dos rios e dos
corpos femininos. Nua, deitava ao meu lado sem dizer nada. Alisava meu peito liso,
eu arrepiava. Suas mãos roçavam as minhas costas e buscavam as minhas coxas. Lúcia
entregava-se sem melindres e recusava moedas de sol. Andei tanto nessa rua que
não sabia mais voltar.
Se queres salvar-me do que mais escondo,
a descontinuidade do meu corpo híbrido
e essa anatomia macabra,
batiza-me depressa com as inefáveis
e assustadoras águas do mundo.
Transformado num trapo, escrevia-lhe poemas e assinava JP. Lucíola ensinou-me a tomar vinho, fumar charuto e outras sapiências que repeti efusivamente até em minhas segundas núpcias, aos 98 anos.
Se queres salvar-me do que mais escondo,
a descontinuidade do meu corpo híbrido
e essa anatomia macabra,
batiza-me depressa com as inefáveis
e assustadoras águas do mundo.
Transformado num trapo, escrevia-lhe poemas e assinava JP. Lucíola ensinou-me a tomar vinho, fumar charuto e outras sapiências que repeti efusivamente até em minhas segundas núpcias, aos 98 anos.
***
A angústia e a inquietação que brotavam em
mim eram conhecidas por todos da tipografia do meu pai. Através de um professor,
um homem simples e acolhedor, pastor dos meus passos, fui apresentado a Escola
Nacional de Belas Artes – má influência para Chico Buarque. Trabalhei para Lúcio
Costa e Carlos Leão. Designaram-me para colaborar com Le Corbusier. Era um
favor que me faziam?
Desde criança aprendi a chorar com força pelo
o que eu queria. Imaginei uma nova história para minha vida e acreditei nela.
Jurei que haveria de ser arquiteto. Corri todos os riscos. Abracei de alma em
festa esta escolha insana: anos e anos de estudo e pesquisa; horas e horas de
lazer sacrificado; rascunhos rasgados antes de chegar a um merecedor de ficar
inteiro; muito esforço até conquistar o reconhecimento ansiado. Quando desafiei
o destino, o inesperado aconteceu.
***
A carta que recebi naquela manhã incentivou
minha frivolidade de estreante, além de me estimular a aprender outros idiomas
(inglês, francês, espanhol, italiano, alemão, latim, grego e dinamarquês).
Telefonei para agradecer e Juscelino insistiu que eu fosse até o seu
apartamento. Tivemos uma longa e prazerosa conversa: a gente tem que sonhar,
senão as coisas não acontecem. Se queria o status de obra de arte teria que ser
audacioso.
Como as minhas idéias haviam brotado por si,
de uma ou muitas inspirações que o empenho se incumbia de aplicar, vacilei em
aceitar o convite. O brasileiro, no burburinho das metrópoles ou no aconchego
do campo, haveria de se orgulhar por ter uma das mais arrojadas obras do século
XX. Senti que, como o jovem de Assis, havia chegado meu momento de optar.
Há quem se espante com um marxista que
constrói igrejas. Influência natural: tinha até missa na minha casa. Esse
passado me deixou com a ideia de que os católicos são bons e querem um mundo
melhor. Mas fui sempre um revoltado. Da família católica esqueci os velhos
preconceitos. Tudo me parecia injusto: a miséria a se multiplicar como se fosse
aceitável. Minha posição diante do mundo era de invariável revolta.
***
Um dia segui viagem sem olhar sobre o meu
ombro para conter o medo de voar. Conhecer a Europa tinha sido um sonho de
mocidade que me impediram de concretizar. Só na idade madura, quando o turismo
passa a ser um tipo de trabalho forçado, eu o cumpri com proveito. Não possuía
mais o ímpeto da juventude, quando uma auréola de quimera envolvia o propósito
da viagem. Lugar de arquiteto comunista era em Moscou? Na lista dos meus
contentamentos é necessário destacar a exposição no Museu do Luvre, a criação
do Centro Cultural de Le Havre, a Mondadori na Itália, o Leão de Ouro na Bienal
de Veneza; além das minhas elegias na Inglaterra, Israel e Argélia. Muitas linhas
que tracei nasceram nessas peregrinações de turista da meia-noite – com um
raminho de alecrim no fundo da mala.
***
Recebi um telefonema em que minha maninha
dizia que a nossa mãe estava para morrer e não parava de perguntar por mim. Na
minha cabeça sucederam cenas antigas, um sentimento estranho me asfixiava.
Lágrimas desciam pelo meu rosto contorcido e eu soluçava baixinho. Desabafei
para o eterno com sua pedagogia de avessos e profundidade mentirosa. Sem minha
mãe, num infinito corredor de espelhos, via-me aos pedaços por mil lados até o
último vazio de toda imagem. No turbilhão daquele começo de entardecer
sufocante e quente, confessei ao espelho as primeiras rugas.
***
Um jovem me perguntou:
– Sei que esse aí é o Jorge Amado. Mas... Ela
é a Rachel de Queiroz?
Aturdido, expliquei que era Zélia Gattai, a
esposa do escritor. A qual ficou desapontada por eu ter com a minha sinceridade
lhe privado a honra de ser a escritora cearense ao menos por engano. Seria eu
também um escritor por engano?
– Literatura não é trabalho, é vocação. Todo
e qualquer escritor deve preservar a criança dentro de si, aquela que a vida
nos obriga a renegar. O verdadeiro escritor é aquele que se recusa a renegar a
infância. Paradoxalmente é esse menino que torna esse autor o mais agudo dos
adultos. A poesia está morta, mas juro que não fui eu! A poesia morre toda vez
que se publica um mau poema, ela deve estar sempre além da letra. A morte
torceu o pescoço... – sussurou-me JP ao se deparar com meus escritos.
***
Chegado o dia de me operar, estava tão
desvairado que pedi à médica para substituir meu coração por uma pedra de
concreto. Depois da cirurgia, segui desacordado para a sala de recuperação.
Acordei na manhã do dia seguinte com tonturas. Em meu delírio, encontrei o
companheiro Carlos Prestes nas colunas gregas do além-túmulo: tortura nunca
mais! Salvem o Vietnã!
***
Em meu centenário vejo que atribuem o multum in parvo ao meu talento: um arquiteto engajado em seu século. Quem,
eu? Um engenheiro como outro qualquer? Para mim já é dignidade bastante ser um
desenhista tout court. Na minha
idade, somos sempre qualquer um.
Uma pequena objeção:
– Arquitetura é meu jeito de expressar meus
ideais: ser simples, criar um mundo igualitário para todos, olhar as pessoas
com otimismo. Eu não quero nada além da felicidade geral. O papel do arquiteto
é lutar por um mundo melhor: por uma arquitetura que não sirva apenas a um
grupo de privilegiados. A arquitetura não tem importância. Não me sinto
importante. A vida é que é importante.
***
A vida é um sopro! José Paulo parece nunca ter
existido, mas são dele essas quase memórias. JP teve um yorkshire para
acompanhar seu cadáver ao Museu do Olho. Haveremos de oportunamente alcançá-los
no dia do juízo.
Suspiro resignado antes que deus acorde e se
descubra também morto. Em nosso século tudo é permitido: deus foi morto pelos
filhos de Nietzsche. Cúmplices: nenhum de nós é um só. Nem meus vermes, nem
meus males. Se fôssemos, a vida seria insuportável. Acima de qualquer suspeita?
Nem a Obra do Berço, nem o Lenin da Paz, nem o Pritzker. Nem eu, se decifrassem
o poeta das curvas.
A vida temia que sua capacidade criadora
fosse ofuscada por meu sósia e eu. Agora que nos contratou para a eterna-idade temos
projetos paradisíacos a realizar. Não faremos tudo de novo: cada dia é
diferente! O mais é história sem rodeios em 104 ou 105 curvas.
| 2012 |
"A vida é um sopro!" - Pode ser... mas um sopro de 105 anos é por demais longo e doloroso em algumas passagens, enquanto se carrega nas costas um "karma" chamado Brasil. Valeu a postagem, querida Paula, saudades de você, linda.
ResponderExcluirAlguns dizem que com a morte desse grande homem realmente é o fim do mundo. Penso que não, a vida é cheia de partidas sem volta, de começo e fim, e infelizmente chegou o fim do Grande Niemeyer. Porém o fim da matéria( O corpo ), pois a sua alma permanecerá no cenário brasileiro por séculos e séculos.
ResponderExcluirThiago Simão.
'Não faremos tudo de novo: cada dia é diferente! O mais é história sem rodeios em 104 ou 105 curvas.'
ResponderExcluirSaudosa postagem Paula. Esse poeta das curvas muito contribuiu para arquitetar um Brasil melhor. E que continue a assim fazer, de onde estiver.
<> Linguagem sinestésica;
ResponderExcluir<> Impregnadada de detalhes, mas objetiva;
<> Texto tecido intermeado de emoção e razão;
<> Parabéns por nos ter propocioando tão belas e sinuosas curvas de literaliedade.
A braço S