PANAPLÉIA

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Bem-vindo(a) ao Laboratório de Autoria de Panapléia! À esquerda das postagens, estão meus textos divididos em categorias e temas. À direita, indicações de blogs e as mídias sociais. No rodapé, mimos felinos e os créditos do blog. Boa leitura!

CINIQUÊS

Aos colegas e professores do I Semestre de Letras da URCA em 1997


Fui recebida pelo corpo docente com muita formalidade e certa precaução. O fato de ter sido indicada para reitora devia-se muito aos anos que morei em Portugal. Longe do Brasil, acabei me distanciando da realidade acadêmica do meu país. Apesar de todos os títulos e experiências acumuladas, estaria pronta para assumir tal cargo? Estremeci. Lembrei de Fernando Pessoa (um dos poucos homens que me fizera passar noites em claro): “Tudo é ousado para quem a nada se atreve.” Fiando-me nesta verdade, abdiquei das minhas atividades literárias em Belo Horizonte para voltar a minha terra natal, Quixadá – a cidade da pedra da galinha choca.

Passada três décadas, voltava ao mesmo e desgastado prédio onde cursei minha graduação. Doces e amargos tempos... Torci para que o corredor da reitoria tivesse sido transferido, reformado ou até mesmo, derrubado. Sobrevivendo as minhas expectativas, as mesmas salas nos lugares de sempre. Senti-me ridícula por lamentar a mesmice física do prédio. As lembranças estavam gravadas com tinta indelével naquelas paredes gastas pelo tempo.

Estanquei a porta da minha sala nova. Crivei a chave entre os dedos e agradeci a Deus a ausência de testemunhas. Enfim, respirei fundo e abri a bendita porta. Vi-me diante de uma mobília que superava soberbamente a que conheci. A decoração era moderna, mas meus olhos insistiam em ver os mesmos adornos rústicos que observara de relance trinta anos antes. Tão pouco conseguia me enxergar como pós-doutorada, era apenas a esperançosa universitária de dezoito anos, caloura do primeiro semestre.

Passei a manhã daquele sábado no pátio de Letras reunida com um pequeno grupo que se debatia com o estudo introdutório do Latim. Depois de horas discutindo, continuávamos cientes de que o papagaio do Prof. Rebouças conhecia mais o caso genitivo do que nós.

– Como é que a gente diz “tô apertada em latim”? – brinquei.

Todos riram, mas ninguém soube responder. Pedi licença aos colegas e segui apressada em direção ao banheiro mais próximo. Fechado. Procurei outro, fechado. Percorri toda a universidade, tudo fechado. Voltei:

– Turma, nós perdemos a hora. Já passa de meio-dia e está tudo fechado.

Houve um instante de reboliço, todos falando ao mesmo tempo. Uma réplica da torre de Babel.

– Peraí, gente! Alguém sabe onde é que eu posso encontrar um banheiro aberto? – quase gritei.

– Ali tem um poste – Luismar provocou e não conteve a gargalhada.

– Basta levantar a perninha – Carlinhos completou.

Virou algazarra de novo. Felizmente Elisy foi solidária:

– Se você agüentar, minha casa fica a uns quatro quarteirões daqui.

– Não, gente! Peraí! Ninguém tem uma idéia melhor? – Nonato, num tom muito sério, tentava ajudar – Moitinha não vale – ajudar na gozação.

Bel (ou foi Juliana?) lembrou que o guarda da universidade poderia nos informar. Rosinha se ofereceu para me acompanhar, enquanto os demais nos esperavam contando anedotas.

Por mais incrível que pareça não encontramos nem alma, apesar de estarmos vizinho a um cemitério. Provavelmente, o infeliz do porteiro havia se escondido para almoçar e fazer uma sesta. Desanimei:

– Não agüento mais andar, menina. Vou escolher uma dessas moitinhas mesmo – estávamos no jardim da reitoria.

– Espera! Nós não procuramos banheiros dentro das salas – a idéia era magnífica. – Que tal, Vilma?

Saímos girando todas as maçanetas.

– Eureka! – Rosinha abrira a porta da recepção da reitoria.

Era uma iluminada saleta que dava para mais três salas. Lemos nas portas: reitor, vice-reitor e sala de reuniões. Arrisquei a porta do vice, abriu. Suspirei aliviada:

– Aleluia! Enfim, um banheiro.

Quando entrei, a constatação fatal: não tinha papel. Surtei:

– Me poupe! Me economize! Rosa, tem papel na sua bolsa?

– Essa é boa. Não. Mas podemos tentar o banheiro do reitor, simples.

– Ah, que ódio! Eu vou lá. Você fica na recepção vigiando, tá?

Era a primeira que eu entrava naquela sala. No banheiro, a luz se negava a acender. Nada é perfeito – pensei. Quando desabotoei a calça, ouvi vozes masculinas entrando na sala. Nem acredito que agora o guarda tinha resolvido dar o ar da graça e ainda trazia mais uma testemunha. Apreensiva, tranquei-me e torci para que aqueles homens fossem embora logo dali. Obviamente a vontade passou com o susto. Uma voz grave com um leve sotaque espanhol se distinguiu e aproximou-se da porta: era o reitor. A maçaneta foi forçada:

– Não é possível! A porta do banheiro está trancada – meu coração subiu à garganta paralisando minha voz – Tem alguém aí?

Do auge da minha insensatez tive uma idéia de jerico: não vou responder e espero até eles saírem. Sempre ouvi dizer que o reitor nunca aparecia para trabalhar. Ele escolheria um sábado para atualizar o serviço? E com uma caloura trancada no banheiro? Passaram-se dez, quinze, vinte minutos. Os dois homens continuavam na sala conversando. Pareciam resolutos em me esperar. Pela conversa, distingui que o segundo era o eletricista que viera consertar a luz do banheiro. Por fim, decidi-me! Abri a porta heroicamente e atravessei altiva aquela imensa sala que mais tarde seria minha (o piso parecia se mutiplicar sob os meus pés).

– Com licença, senhores! – com a cabeça erguida, se quer os fitei.

Os dois emudeceram diante da minha “ciniquês” – vocábulo criado pela Profª. Irisan. Calouro sofre!

2005

2 comentários:

  1. Pois é, pois é, pois é... Eu paguei esse orangotango no banheiro da falecida Dra. Profa. Violeta Arraes. Isso já na época da Pós, quando Rosinha era secretária do Prof. Plácido e me autorizou usar o banheiro da reitora. Só que ao invés da onça me esperar, voltou à sala do vice-reitor e eu fiquei sozinha com a bomba. Mui amiga!

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  2. Amiga, ninguém merece essa foto!!!!kkk...tinha uma mais bonitinha não???? Falo por mim claro!!! Vc está proibida de ter tendinite e deixar de escrever esses incriveis acontecimentos......bjão! Amo vc!!!

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