PANAPLÉIA

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Bem-vindo(a) ao Laboratório de Autoria de Panapléia! À esquerda das postagens, estão meus textos divididos em categorias e temas. À direita, indicações de blogs e as mídias sociais. No rodapé, mimos felinos e os créditos do blog. Boa leitura!

NEM DOEU


Sempre fui traumatizada com tudo de hospital: fachada, cheiro, roupas, corredores, comida, tudo. Felizmente nunca precisei ficar internada até o último onze de setembro – oh, data! Dia do casamento de Mimi, minha amiga de infância, eu era a madrinha e tive uma crise terrível de coluna. Deus sabe que fui para cerimônia depois de ter tomado um arsenal de remédios. Cheguei lá toda dura, praticamente um robocop gay tirando a purpurina do potinho. Até a entrada da noiva perdi porque não conseguia mover a cabeça. Mimi me olhava durante a pregação do pastor e percebendo algo errado sussurrava: “você não está gostando?” Eu sorria e dizia que estava tudo bem para não preocupá-la. Aguentei firme até a recepção.

Chegando em casa pedi a minha sobrinha que me fizesse uma massagem, na sequência mamãe fez outra. Liguei pro meu fisioterapeuta que ficou de me examinar pela manhã. Que noite aquela... Minha amiga de infância em lua-de-mel e eu com as dores mais terríveis que já senti em minha vida – gritava de dor ao menor movimento. Segundo Susete isso era inveja (risos), falarei dela daqui a pouco.

Não suportei esperar Marcondes chegar. Assim que o dia começou a clarear, chamei um táxi e segui para a Clínica SM – a escolhi pela proximidade a minha casa. Descer a calçada foi uma tortura, entrar no carro outra e para sair dele vi cores de Frida Kahlo. Esse negócio de virar estátua de repente é muito mais complexo do que parece. Camille Claudel sabe lá o que é isso...


Um médico sonolento e antipático (o que é que estão ensinando a esses imbecis nas faculdades?) me atendeu de má vontade. Provavelmente, ele esperava que fosse ficar rico com a Unimed. Entrei imediatamente no soro, o primeiro da minha vida. Liguei para o trabalho, avisei que estava em observação e não iria para o planejamento naquela manhã – um muxoxo do outro lado. Na verdade, não sei direito qual o aproveitamento dessas sabatinas obrigatórias em todas as instituições de ensino, mas isso é assunto para um outro post.

Após o soro expliquei para o médico que a dor havia cedido enquanto eu estava parada, mas ao me mexer sentia as fisgadas. Ele foi categórico: “vamos internar”. Lá fui eu, numa espécie de cadeira de rodas, subindo pelo eleva(a)dor até o primeiro quarto do primeiro andar. Mamãe foi para casa e Tallytinha, minha fiel escudeira, bancou a acompanhante (mentimos sua idade para ela poder ficar).

Não cumprimentei ninguém ao entrar no quarto. Ainda sentia muitas dores e me movimentava com bastante dificuldade. Pelas horas seguintes me tornei emo simplesmente porque não tinha animo para sociável. As duas companheiras de quarto souberam da minha história numa espécie de colcha de retalhos que foram montando ao ouvir as conversas com os médicos e enfermeiros. Era a primeira vez de quase tudo ali para mim, era muita novidade ruim acontecendo ao mesmo tempo.

Liguei novamente para o trabalho e expliquei que não poderia ministrar aulas à tarde, blá, blá, blá. Do outro lado alguém ouviu em silêncio e lascou em seguida: “Não tenho quem dê essas aulas. Como ficarão os alunos? Você não tem como fazer um esforcinho?” Teria gargalhado se não estivesse sentindo dor, me limitei a um “Não” seco e desliguei. Fiquei mais doente do que já estava – que tipo de monstro era aquele que trabalhava comigo? Não, não era minha coordenadora. Das Dores estava internada na mesma clínica há alguns dias; Alci, Brandão e David também tinham tirado uns dias de folga por lá. Com a frequência de internamento de sua equipe, em breve ela negociaria com a clínica uma espécie de “leito cativo” para seus professores moribundos.


Quando as dores cederam um pouco, enviei torpedos para meus amigos berrando: final de semana emendado com feriado não há desculpa para não se despedir de uma enferma que está agonizando num leito de hospital. Tudo bem, confesso que me contive, enviei algo bem mais modesto informando o internamento. Seguiu-se uma procissão de visitantes, sinal que pelo menos terei mãos suficientes para as alças do meu caixão. Como eu havia prometido em meu leito de (quase) vida, aqui registro o carinho dos:

Telefonemas: Ane, Loureto, Marcinha, Rose e Rildete.

Torpedos: Ana Cleide, Help, Henilton, Jonnatan, Jorge, Mazé, Rose e Soraia.

Visitantes: Alci, Anésia, Aparecida, Biane, Brandão, Chrisininho, Deinha, Emanuel, Grace, Irisan, Márcio, Marcos, Mimi, Mirian Xenofonte, Noberto, Orlete, papai, Quinquin, Solange e Vanessa.

Agora, vamos às minhas companheiras de martírio. Érika e Susete foram as melhores companhias para se distrair durante um internamento. Havia um campeonato para ver quem tomava mais medicação, quem recebia mais visitas (ganhei, ganhei, ganhei!!!) e quem vencia as outras no quesito “cardápio calórico zero” – já que a nossa alimentação era escolhida por uma nutricionista.

Érika era a alegria do quarto, mesmo empenhada em fazer os trabalhos da faculdade no notebook. Fiquei impressionada com a intransigência de seus professores. Formada em Letras, ex-funcionária SESC, casada com meu antigo colega de trabalho e graduanda em Direito – não faltava assunto entre nós.

Susete, professora aposentada, mãe de duas colegas minhas, tinha uma energia e vivacidade contagiantes. Falava-me com nobreza sobre seus tempos de sala de aula e docemente aconselhava Érika a ser uma esposa-mãe sempre melhor.

Nosso internamento daria certamente um bom filme – daqueles que fazem rir e chorar simultaneamente – sobre três mulheres que enchem suas taças até transbordar, sentindo tudo de todas as maneiras. Protagonistas tão semelhantes em suas escolhas e tão diferentes em suas singularidades; com estados de saúde delicados e uma poderosa força interior. As mazelas se tornaram nulas diante do nosso poderoso antídoto: o bom-humor. Mostrando quanto temos a aprender nos sustos que a vida nos dar. Aqui me pergunto se a “falta de tempo” – mal do século – será desculpa para não nos reencontramos.

Algumas lembranças se tornaram mais marcantes, como o “suco do Chaves” – o suco tinha cor de uma fruta, gosto de outra e diziam que era de uma terceira. Recebíamos aqueles saches com açúcar que não adoçava e sal que não temperava nada. Só nos restava rir, rir e rir de novo. Tanto ríamos que as enfermeiras vinham reclamar o barulho e nos lembrar que estávamos numa clínica. Não sabiam elas que tudo que queríamos era esquecer onde estávamos até a chegada das próximas injeções.

Pausa para as pornografias... Havia uma injeção para dor que ao ser aplicada no soro imediatamente provocava um incrível comichão genital. As enfermeiras não se davam ao trabalho de nos preparar para isso e ficávamos nos indagando de onde vinha aquele frenesi todo. Creio que na segunda dose pude associar as reações ao medicamento e comentei com as companheiras. Susete não tomava essa medicação, mas Érika sim. A partir daí, surgiu um voyeurismo cúmplice entre nós. Já sabíamos o horário de cada aplicação e quando essa era feita uma se contorcia na tentativa inútil de suavizar as sensações, enquanto as outras duas riam freneticamente. Nisso consistia nosso passatempo predileto: rir das desgraças alheias, sobretudo porque partilhávamos delas. Vou omitir as doses de fluoxetina... Era pra enxaqueca, pessoal, um santo remédio!

E o soro? Que troço chato! Não doía, mas incomodava o tempo inteiro. Como não sei ficar quieta, nem queria, desfilava por todos os corredores arrastando a pesada barra de ferro. Quando Tallyta tentava me impedir, eu tinha uma justificativa imbatível: “eu faço ‘nanação’ pro médico enjoar de me encontrar pelos corredores e me dar alta”. Nos ganchinhos do torno, empendurava meus dois celulares, uma presilha de cabelo e tudo mais que desse na telha – para irritação das enfermeiras e diversão dos outros pacientes. O pior era na hora de tomar banho e a tragédia era se vestir. Recusei-me firmemente a usar aquelas camisolinhas de hospital – tudo menos “cara” de internada. Usava meus vestidinhos de praia com cores de Frida Kahlo, mesmo com o soro se enganchando nas alcinhas e nas tirinhas.


Quem assistiu “Divã” vai poder entender perfeitamente meu comportamento hospitalar incoerente. Eu tomava um banho de noiva, outro de cosméticos, só não tomava mais um de colônia em respeito às pneumônicas colegas de quarto (por causa da enfermidade delas todo dia me obrigavam a tomar aerosol). O cabelo felizmente estava chapado, não dava trabalho nenhum. Passava um batonzinho e colocava óculos escuros – um protesto pelo sol que entrava no quarto à tarde. Isso era motivo de riso o dia inteiro, principalmente quando eu colocava os óculos das amigas que vinham me visitar – verdadeiras telas de LCD.

Aproveitei que meu ex estava facim-facim para pegar o notebook dele emprestado. Com apenas uma mão livre elaborei cinco projetos para editais. Quando todos foram aprovados entendi porque meus desafetos só aumentam. Conheço pessoas saudáveis que com duas mãos, no conforto do lar, elaboram um só projeto que não fica nem na lista dos classificáveis.

Fui internada na manhã do sábado, na tarde da terça-feira dei uma voadora no médico e capei o gato. (Ai, que delícia escrever gírias... É por isso que eu publico um blog e não um livro.) Na quarta-feira pela manhã, dei uma perdida em todo mundo que tentou me manter de repouso e viajei para Sousa-PB para ministrar o Curso sobre Adélia Prado no CCBNB. É preciso muito mais do uma ordem médica para me impedir de voar. Alguém me disse “é na queda que o rio ganha forças”. Queda? Que queda? Nem doeu.


2009

2 comentários:

  1. Nem acredito que perdi de ver você enferma!
    Na próxima me convide... kkkkk

    :*

    ResponderExcluir
  2. Não é atoa que voce é minha super-heroina preferida. Só perde para o meu super-heroi preferido, o Pica-pau. qualquer semelhança entre voces é mera coincidencia.(risos).

    Jully

    ResponderExcluir

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