PANAPLÉIA

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Bem-vindo(a) ao Laboratório de Autoria de Panapléia! À esquerda das postagens, estão meus textos divididos em categorias e temas. À direita, indicações de blogs e as mídias sociais. No rodapé, mimos felinos e os créditos do blog. Boa leitura!

SOL QUENTE

À Ana Cleide Alcântara, prima de categoria.

Um dia do calendário pode conter uma vida ou uma galáxia. Para produzir um longa-metragem em um minuto é suficiente reunir uma porção do doce de leite Alcântara com uma fatia de insônia acadêmica. Depois é só fatiar temperos mitológicos, cozinhar numa panela de barro e servir na temperatura do sol juazeirense.

Os dois primeiros telefonemas comemoravam o primeiro aniversário da quinta-feira do monte de Vênus. No terceiro, a confirmação do pressentimento:

– D. Josefina está agonizando nesse minuto – as lamúrias da bisavó centenária silenciavam para sempre.

A florista foi a primeira a chegar ao quarto da falecida porque pele de velha está valendo muito dinheiro no Cariri (precisa amolar bem uma faca e começar a retirar pelos pés).

Às 23h em Pacajús, Dionísio, embriagado, atirou Márcia contra a árvore da vida (fugiu a galope sem socorrer a celibatária). Uma hora depois, os pretendentes de Penélope estavam todos mortos.

Madrugada em velório não passa do trivial. A florista era a mais falante, contando o que via durante suas orações em frente à gruta da Imaculada Conceição:

– Quem está lá há mais tempo é Gonçalo, sentado no batente, mataram ele e depois tocaram fogo. O segundo é o romeiro Roberto, está deitado no chão e morreu louco. O terceiro está se balançando numa rede, mas não lembro o seu nome e nem como morreu.

– Na casa dos Morais, mesmo antes da morte da minha avó, já apareciam visagens. Um vestido marrom que sobrevoava o quintal como se estivesse empendurado num varal muito alto.

– No terreiro da Bananeira, certa vez, na hora do Angelus, enquanto meu avô lavava os pés, viu uma criança vestida de franciscano deitada na terra. Quando seu Hosano se aproximou, ela virou uma esteira de cavalo e desapareceu.

– É por causa do cemitério de pagãos que tem lá perto. Ouvi-se muito choro de criança. Tem que dar nome a elas, José ou Maria, e batizá-las em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

– Também tinha um cemitério ali onde hoje é a praça. Ao lado da Igreja Matriz de São Pedro de Caririaçu. Encontraram muitos esqueletos por lá quando foram fazer as escavações.

– E também tem a eterna noiva... Ela está com seu vestido branco, toda sexta-feira, amanhã é dia, à meia-noite esperando o noivo na porta da Igreja. Carmelita viu o vulto branco e descalço andando no seu quarto de madrugada...

– Carmelita teve AVC e ainda vai demorar um ano até a sua morte. É melhor parar por aqui, o dia está amanhecendo.

– Qual a diferença entre avisualização e lendia? – a florista coçava a cabeça atazanada pelos piolhos da neta.

Na Terra do Contrário, as caboclinhas tiraram à porta da chave para que a biblioteca não invadisse o ladrão. Duas discutiam anatomia, a terceira sonhava com Odisseu. O tempo engatinhava em meio a livros e gargalhadas proibidas. Tiveram tempo de dissecar as mudas do herbário e as esculturas dos deuses nus. Inspiração musical: desvendar sons de ferro que rasgavam o silêncio e produzir melodias roucas semelhantes às temidas.

A porta emperrada se abriu para horror das primas. Era hora de procurar a feiticeira branca e trancafiá-la no calabouço. Haveria mais alguém por ali espionando as confissões? Precisavam enfrentar os perigos e se lançar pela madrugada de tesoura escolar em punho. Para espantar onça faminta só há um jeito: uivar como lobo.

– “Segura na mão de Deus e vai...” – era o hino que Santo entoava para enterrar sua cabra de estimação.

Enquanto Coronel Botelho aboiava seus escravos pela rua que recebeu o seu nome, tiros foram disparados no meio da praça – 14 ao todo.

– A mulher morreu, o homem saiu baleado e mataram Ella.

Ulisses voltou à Itaca indefesa às 4h da madrugada. As primas tentaram dormir, mas o sono foi interrompido pelo Capitão Gancho que forçava a gaiola esquecida em busca de sobrevoar a Terra do Nunca. Inocentes úteis: não sabiam que Peter Pan havia roubado uma espaçonave no Crato e abandonado na calçada delas.

– Nem todo pingüim vem do frio... Porca, diabo! – Santo agarrou-se ao jumento na viela escura.

Largado numa cama emprestada, o pingüim sonâmbulo gritou que “a lua caiu”. Amanheceu 14 de setembro. No toque da sirene, a surpresa:

– Não é, mas age como se fosse... Eita, sol quente, prima!


ALVES, Paula Izabela de Alcantara. Sol Quente. In: O Cravo Roxo do Diabo – o Conto Fantástico no Ceará. SALGUEIRO, Pedro (org). V Edital de Incentivo às Artes – Secult-CE. Fortaleza: Expressão Gráfica Editora, 2011, p. 471-473.
| 2007 |

3 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Esse conto foi publicado numa antologia. Segue informações sobre lançamento em breve.

    PROJETO BAZAR DAS LETRAS - ESPECIAL

    Lançamento da Coletânea "O Cravo Roxo do Diabo - o conto fantástico no Ceará".

    Bate-papo com Pedro Salgueiro, Sânzio de Azevedo, Raymundo Netto e Poeta de Meia-Tigela.

    Mediação: Carlos Vazconcelos.

    “Organizar uma Antologia não é tarefa das mais fáceis, sobretudo quando não se pretende jogar textos aleatoriamente, sem critérios de catalogação, ou aferir valores num processo seletivo. A ideia inicial era traçar apenas um panorama do conto, mas a pesquisa avultou-se e decidiu-se, além dos 172 contos selecionados, inserir dois apêndices, com 17 capítulos de romances e 60 poemas, compondo, assim, um panorama amplo do texto fantástico cearense produzido entre os séculos XIX e o XXI.”
    Aíla Sampaio
    Poeta e ensaísta, Professora da Unifor.

    “A coletânea O Cravo Roxo do Diabo – o conto fantástico no Ceará proporcionará momentos de prazerosa leitura, pela diversidade de autores, variedade de estilos e multiplicidade de estéticas reunidas sob o viés do fantástico. Trabalho de fôlego, também se consolidará como fonte de pesquisa indispensável nas letras cearenses e brasileiras.”
    Carlos Vazconcelos
    Escritor

    SERVIÇO:
    Lançamento do livro "O Cravo Roxo do Diabo"
    Quarta-feira, 01 de junho de 2011
    19h no SESC SENAC Iracema
    Fortaleza - CE

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  3. Paulinha, muito bom!!!!

    Parabéns pela produção deste conto fabuloso! Deu até medo!

    Lembra quando comentei algo com você, tipo: Fazemos planos que viram planetas? Pois é, esta aí minha teoria, comprovadíssima! Seu planeta amiga! Aproveite a oportunidade, certamente, dias melhores virão. Você merece ser mais uma estrela dessa galáxia literária!

    Forte abraço!

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