Em 30 de maio de 2009, estive no CCBNB Sousa - PB ministrando duas sessões no Programa Construindo Histórias da Oficina Amigos de estimação: só quem tem sabe. O estímulo para a iniciativa foi minha rotina felpuda. Afinal de contas, só quem tem um amigo de estimação sabe o que é...
Ter os telefones do cel e residência de pelo menos quatro veterinários;
Ter uma farmácia veterinária em casa com antibiótico, antinflamatório, antitérmico, vitaminas, antiviral, analgésico e até remédio para afta;
Encontrar a roupa nova que você ainda não pagou cheia de pelos;
Descobrir a bolsa ou a mala retalhada por unhas afiadas;
Separar o dinheiro da ração do mês assim que receber o salário;
Cuidar da patinha de Cinzento que estava na carne viva por ter sido amarrado por "sequestradores";
Bater de porta em porta na vizinhança: alguém viu um gato cinzento com uma cicatriz na pata dianteira?
Dar banho em Cinzento diariamente para livrá-lo das coceiras;
Dividir uma panelona de pipoca com Cinzento;
Encontrar Cinzento sem vida, passar a noite no quintal com Mimi velando o corpo até o enterro na manhã seguinte;
Dar leite a Ferinha num tubinho de colírio enquanto ele não aprende a se alimentar sozinho;
Limpar o olho remelento de Ferinha com soro fisiológico;

Colocar Ferinha dentro de um saco de chilito para dar risada com ele dando ré;
Correr a casa toda com Ferinha no braço para o pedreiro não castrá-lo;
Escalar o telhado dos vizinhos para tirar Ferinha que não tinha medo de subir, mas se apavorava na hora de descer;
Morrer de inveja dos banhos de sol de Ferinha;
Deixar Ferinha comer as plantas de mamãe só porque ele é fofo;
Ver o bolo de aniversário da prima todo marcado pelas patas de Ferinha;
Fazer campanha no orkut para encontrar Ferinha que sumiu aos 13 anos;
Ver Juliano roubar o teclado do computador para apertar tudo e olhar esbugalhado para a tela a fim de descobrir o que acontece;
Deixar Juliano dormir em cima da cama porque ele está com febre (e tem olhos azuis);
Achar lindo Juliano morder e arranhar todas as sandálias só por brincadeira;
Morrer de inveja de Juliano quando ele dorme o dia todo com a barriga para cima;
Comprar ração especial para Juliano por causa do problema de urina dele;
Ligar para a clínica trocentas vezes seguidas: por favor, eu queria falar com Dr. Marcelo é sobre Juliano...;
Ficar com o coração partido por colocar Juliano na coleira para ele não sumir na hora de tomar o expectorante;
Correr para socorrer Juliano porque ele derrubou uma escada de ferro por cima da própria cabeça;
Subir numa parede para desenganchar a coleira de Juliano de uma altura de três metros, enquanto ele se debatia quase se enforcando;
Chorar com Juliano nos braços quando o veterinário diagnostica o derrame pulmonar;
Reunir as amigas em casa para cuidar da falta de ar de Juliano;
Caminhar descabelada, descalça e de camisola no telhado da casa para pegar Juliano no primeiro andar da vizinha;
Ver Juliano despencar de cima da estante com todos os porta-retratos de vidro e cerâmica;
Ajudar no parto da desengonçada da Nega, mesmo detestando-a por bater em Juliano;
Dormir entre lágrimas imaginando horrores pelo paradeiro do trio fujão; enquanto Juliano, Branquinha e Nega estão presos na construção da vizinhança;
Confundir Branquinha dormindo com as outras estátuas da estante;
Deixar Charmosa arranhar o espelho para bater no filhotinho que está olhando para ela;
Ver Nega rosnar feito um cachorro cada vez que alguém passa perto da ração dela;
Filmar o parto de Léia, consequência de uma gravidez prematura;
Não resistir aos olhinhos de Marcelino na clínica e adotá-lo mesmo já tendo cinco felinos em casa.
Só quem tem amigos de estimação sabe que não precisa chorar o leite derramado... Basta reunir os gatinhos!!!

PS: Essa foto não foi planejada, foi desastrada mesmo (risos). Tallytinha derramou leite no pé da geladeira e antes que a avó dela reclamasse, reunimos os "esfregões peludos" para limparem tudo. Da esquerda para a direita: Léia, Charmosa, Juliano, Nega e Branquinha. Se você acha que sou louca, não sou a única...
ODE AO GATO - Artur da Távola
Nada é mais incômodo para a arrogância humana que o silencioso bastar-se dos gatos. O só pedir a quem amam. O só amar a quem os merece. O homem quer o bicho espojado, submisso, cheio de súplica, temor, reverência, obediência. O gato não satisfaz as necessidades doentias de amor. Só as saudáveis.
Já viu gato amestrado, de chapeuzinho ridículo, obedecendo às ordens de um pilantra que vive às custas dele? Não! Até o bondoso elefante veste saiote e dança valsa no circo. O leal cachorro no fundo compreende as agruras do dono e faz a gentileza de ganhar a vida por ele. O leão e o tigre se amesquinham na jaula. Gato não. Só aceita relação de independência e afeto. E como não cede ao homem, mesmo quando dele dependente, é chamado de traiçoeiro, egoísta, safado, espertalhão ou falso.
“Falso”, porque não aceita a nossa falsidade e só admite afeto com troca e respeito pela individualidade. O gato não gosta de alguém porque precisa gostar para se sentir melhor. Ele gosta pelo amor que lhe é próprio, que é dele e o dá se quiser.
O gato devolve ao homem a exata medida da relação que dele parte. Sábio, é esperto. O gato é zen. O gato é Tao. Conhece o segredo da não-ação que não é inação. Nada pede a quem não o quer. Exigente com quem o ama, mas só depois de muito se certificar. Não pede amor, mas se lhe dá, então o exige.
O gato não pede amor. Nem dele depende. Mas, quando o sente, é capaz de amar muito. Discretamente, porém, sem derramar-se. O gato é um italiano educado na Inglaterra. Sente como um italiano, mas se comporta como um lorde inglês.
Quem não se relaciona bem com o próprio inconsciente não transa o gato. Ele aparece, então, como ameaça, porque representa a relação sempre precária do homem com o (próprio) mistério. O gato não se relaciona com a aparência do homem. Vê além, por dentro e avesso. Relaciona-se com a essência.
Se o gesto de carinho é medroso ou substitui inaceitáveis (mas existentes) impulsos secretos de agressão, o gato sabe. E se defende ao afago. A relação dele é com o que está oculto, guardado e nem nós queremos, sabemos ou podemos ver. Por isso, quando esboça um gesto de entrega, de subida no colo ou manifestação de afeto, é muito verdadeiro, impulso que não pode ser desdenhado. É um gesto de confiança que honra quem o recebe; significa um julgamento.
(Juliano pula no teclado para opinar sobre a postagem: bbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbb. Coloquei uma foto dele namorando na tela para sossegá-lo. Quem tem um gato sabe que é verdade pura.)
O homem não sabe ver o gato, mas o gato sabe ver o homem. Se há desarmonia real ou latente, o gato sente. Se há solidão, ele sabe e atenua como pode (enfrenta a própria solidão de maneira muito mais valente que nós).
Se há pessoas agressivas em torno ou carregadas de maus fluidos, eles se afastam. Nada dizem, não reclamam. Afastam-se. Quem não os sabe “ler” pensa que “eles não estão ali”, “saíram” ou “sei lá onde o gato se meteu”. Não é isso! É preciso compreender porque o gato não está ali. Presente ou ausente, ensina e manifesta algo. Perto ou longe, olhando ou fingindo não ver, está comunicando códigos que nem sempre (ou quase nunca) sabemos traduzir.
O gato vê mais, vê dentro e além de nós. Relaciona-se com fluidos, auras, fantasmas amigos e opressores. O gato é médium, bruxo, alquimista e parapsicólogo. É uma chance de meditação permanente ao nosso lado, a ensinar paciência, atenção, silêncio e mistério.
Monge, sim, refinado, silencioso, meditativo e sábio, a nos devolver as perguntas medrosas esperando que encontremos o caminho na sua busca, em vez de o querer preparado, já conhecido e trilhado. O gato sempre responde com uma nova questão, remetendo-nos à pesquisa permanente do real, à busca incessante, à certeza de que cada segundo contém a possibilidade de criatividade e novas inter-relações, infinitas, entre as coisas.
O gato é uma lição diária de afeto verdadeiro e fiel. Suas manifestações são íntimas e profundas. Exigem recolhimento, entrega, atenção. Desatentos não agradam os gatos. Bulhosos os irritam. Tudo o que precisa de promoção ou explicação os assusta. Ingratos os desgostam. Falastrões os entediam. O gato não quer explicação, quer afirmação. Vive do verdadeiro e não se ilude com aparências. Ninguém em toda a natureza, aprendeu a bastar-se (até na higiene) a si mesmo como o gato.
Lição de sono e de musculação, o gato nos ensina todas as posições de respiração e yoga. Ensina a dormir com entrega total e diluição no Cosmos. Ensina a espreguiçar-se com a massagem mais completa em todos os músculos, preparando-os para a ação imediata. Se os preparadores físicos aprendessem o aquecimento do gato, os jogadores reservas não levariam tanto tempo (quase quinze minutos) se aquecendo para entrar em campo. O gato sai do sono para o máximo de ação, tensão e elasticidade num segundo. Conhece o desempenho preciso e milimétrico de cada parte do seu corpo, ao qual ama e preserva como a um templo.
Lições de saúde sexual e sensualidade. Lição de envolvimento amoroso com dedicação integral de vários dias. Lição de organização familiar e de definição de espaço próprio e território pessoal. Lição de anatomia, equilíbrio, desempenho muscular. Lição de salto. Lição de silêncio. Lição de descanso. Lição de introversão. Lição de contato com o mistério, o escuro e a sombra. Lição de religiosidade sem ícones.
Lição de alimentação e requinte. Lição de bom gesto e senso de oportunidade. Lição de vida e elegância, a mais completa, diária, silenciosa, educada, sem cobranças, sem veemências ou exageros e incontinências.
O gato é um monge portátil sempre à disposição de quem o saiba perceber.
OBS: O meu "monge portátil" é um gato de biblioteca.
2009