PANAPLÉIA

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Bem-vindo(a) ao Laboratório de Autoria de Panapléia! À esquerda das postagens, estão meus textos divididos em categorias e temas. À direita, indicações de blogs e as mídias sociais. No rodapé, mimos felinos e os créditos do blog. Boa leitura!

METADE CARA + METADE MÁSCARA



– O que mais me encantou em você foi justamente aquilo que você teme revelar. Meu radar capta fragilidade masculina por baixo de qualquer disfarce. Sou uma mistura de pedófila emocional com para-raio de doido. Não resisto a meninos indefesos refugiados em homens adultos.
– (...)
– Francamente, não sei se a vida prega nos outros tantas peças quanto prega em mim. De qualquer forma, não me sinto no direito de reclamar porque observo que tive oportunidades raras, como a de conversar a sós com você naquela noite fria. Você e seu tagarelismo. Você e suas revelações. Você e suas indiscrições. Depois de irritarmos os garçons e sermos expulsos, achei que saí dali conhecendo muito sobre você. Com certeza não tudo, mas o suficiente para deixar fluir as sensações que você me proporcionava. Foi tão inebriante aquela noite que não me dei conta dos riscos que corria...
– (...)
– Mas não vim aqui para falar sobre o passado. Perdi o prumo, desculpe. Vim dizer que sua proposta de sermos bons amigos não me interessa. Em nada. Não mudo as pessoas de prateleira com tanta displicência. A vida para mim vai muito além de rótulos. Você deve estar pensando: “lá vem ela fazendo drama”.
– (...)
– Estou com muitas dúvidas ao seu respeito e não costumo consultar oráculo, horóscopo, detetive, melhor amiga ou algo que equivalha. Prefiro coletar informações direto da fonte porque as chances delas serem distorcidas são menores – assim espero.
– (...)
– No primeiro encontro você se mostrou receptivo e se disse solteiro, o que significa disponibilidade para conhecer alguém. Na sequência, “solteiro não disponível” revelou a omissão de antes. Entre horários que não batem, e-mails que não chegam, torpedos que atrasam, celular desligado e telefone residencial reservado, sou instigada a duvidar. A mulher que não lhe deixa solitário sabe onde você está agora?
– (...)
– Como jornalista eu sempre descubro o que preciso e tenho a obrigação de usar bem as palavras.  Sou a favor de relação aberta, mas não acho justo que a liberdade aconteça em mão única. Espero que você não me tenha feito compactuar com uma mentira. O convite para jantar foi simplesmente falta de companhia?
– (...)
– Não sou loja de conveniência para ficar aberta 24h esperando você voltar sabe lá Deus quando, nem sou rocambole para você me enrolar. Ratifico o que disse a última vez que nos falamos por telefone: “ou você diz o que quer de mim ou me manda catar formiga”. Ou no dialeto dos meus avós: “ou você mija logo ou desocupa a moita pra outro”. Ou se preferir na variante dos meus filhos: “sua senha é vip, mas a fila anda”.
– (...)
– Cair no mesmo buraco uma vez é humano. Duas vezes é estupidez. Figurinha repetida não completa álbum! Nós já tentamos isso uma vez e não deu certo. Por que deveríamos repetir a mesma mancada? Não me entenda mal... Eu tenho amigos coloridos, sim. Mas não vou para cama com eles. A gente só bate papo, troca confissões, fresca muito, se insinua, dá risada e pronto. Eu também sou amiga dos meus exs, mas isso não inclui “remember”.
– (...)
A receptividade foi mera consequência do seu ego inflado pela abordagem? O interesse por mim foi puramente sexual?
– (...)
Peço desculpas. Se você confundiu minha postura foi por culpa minha que provavelmente dei a entender ser muito mais moderna do que realmente sou. Garanto que existem mulheres menos complicadas e mais desinibidas. Detesto tomar a iniciativa de me aproximar; acho terrivelmente constrangedor ter que me insinuar, correr atrás, etc. Só fiz isso porque você tem um jeito tão natural e displicente que dá vontade de colocá-lo no colo e ficar paparicando.
– (...)
– Juro que não entendi onde houve falha no nosso processo de comunicação. Nós acreditamos que queríamos o mesmo que o outro queria. Hoje sabemos que isso não é verdade. Nós partimos em direções opostas na certeza de que seríamos seguidos pelo outro, mas não foi assim. Quando olhamos para trás percebemos que estávamos sós em nossos planos. Fizemos planos que viraram planetas! Foi a nossa expectativa em torno do outro que falhou. E não repita que você estava completamente desarmado... Não ter um preservativo não significa necessariamente estar desarmado.
– (...)
– A carne é fraca, mas endurece? Acontece que nasci no século passado. Esses relacionamentos abertos são moderninhos demais para mim. E não estou falando de casar ou ter filhos. Estou falando em diálogo! Você sabe o que é isso? Foi o nosso diálogo que não funcionou. Não percebemos que o outro não queria o mesmo tipo de relacionamento.  Erro de interpretação. Um radialista, você...
– (...)
– Quem não foi claro? Eu? Talvez eu tenha omitido exatamente o que queria porque você falava tanto sobre você que me deixava intimidada. Pois é, ainda dizem que são as mulheres que falam demais.
– (...)
– Lembra quando você me disse que não se come uma esposa? E por isso você estava procurando uma namorada? Namorada sim é comestível! Achei que estava falando sério e se nós dois não tínhamos o casamento como um objetivo comum, poderíamos nos divertir muito como namorados.
– (...)
– Claro que você não lembra. Lembrar para quê? A receita da felicidade é uma ótima saúde e uma péssima memória. Ah, você está rindo? Mas não é piada. É de doer! É como uma daquelas verdades que dói como um soco.
– (...)
– Não precisa bancar o ursinho de pelúcia que caiu do caminhão de mudança. Aposto como você encontrará uma... ursinha. Na verdade esse tipo descartável que você busca está em alta no mercado. Tem de todo tipo, tamanho, cor e modelo. A álcool ou a gasolina. Algumas até não se importam de serem abastecidas com querosene. Desde que dê faísca!
– (...)
– Não estava me referindo as Amélias que disfarçam a falta de amor próprio se contentando em viver eternamente a sombra de um homem. Sei que você também abomina esse tipo. Ou pelo menos, passou a abominar depois que teve que pagar pensão à mercenária que nunca teve um emprego. Ops, quer dizer, do lar é uma profissão digna. Pena que os maridos, justamente aqueles que deveriam valorizar o achado, não respeitam.
– (...)
– Pode deixar, eu faço questão de pagar. Troco para cem, garçom! Esse joguinho pode ser sedutor para outro tipo de mulher, não para mim. Minhas cartas estão todas na mesa. Sempre. Mas não desanime! Basta olhar em voltar com atenção e não faltarão opções para um cara atraente como você. Ou melhor, feito você!
– (...)
– Mas não me refiro a mulheres vulgares. Estou falando de mulheres bonitas, simpáticas, divertidas, independentes, que conseguem transar como homens. Sabe o tipo: fecha o zíper e vai embora? Por aí. Encontre a sua!

| 2011 |


Depois de ler ouça Zélia Duncan: "Vou tirar você do dicionário".

Publicado na sessão O universo masculino visto por elas da revista Mulheres que Comandam em 02/08/2012.

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