PANAPLÉIA

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Bem-vindo(a) ao Laboratório de Autoria de Panapléia! À esquerda das postagens, estão meus textos divididos em categorias e temas. À direita, indicações de blogs e as mídias sociais. No rodapé, mimos felinos e os créditos do blog. Boa leitura!

ALMA BEAT

A pessoa feita de açúcar cristal aceita o convite para produzir algo que não sabe nem por onde começa, nem como termina. Fui assim mesmo, com a cara lavada e a coragem suja. Cada uma que me aparece que vale por dez... Sobrevivi, sabe Deus como!


Saldo: quase cem ingressos e muitos aplausos para o proponente.

Beat: não só o senso rítmico, a batida (beat), mas também meio que prostrar-se vencido, abatido (beat) pelo fatalismo do pós-guerra. Isso se aplicou a todos aqueles fragmentos da sociedade norte-americana obcecada com a liberdade que a história dessa nação prometera, ou seja, guiar em alta velocidade, fumar maconha e largar mão dos pequenos negócios, acreditando que o admirável mundo novo seria por demais monolítico e brutal pra que, nele, essas coisas sobrevivessem. Mais tarde o termo beat será usado como referência jornalística às comunidades de arte, jazz e poesia, de Nova York e San Francisco. Um cenário com muito pouco a ver com a participação de mulheres como artistas, elas próprias. A verdadeira comunicação acontecia entre os homens; as mulheres estavam presentes como espectadoras. Suas old ladies (senhoras). Era uma estética masculina essa corrida frenética e delirante a todas as percepções sensoriais possíveis, uma exacerbação extremada dos nervos, um constante ultrajar do corpo com bebidas, drogas, promiscuidade sexual, pintura abstrata e a absorção do zen-budismo.
(...)
1974, ano crudelíssimo. A crise do petróleo bo­tando existências pra baixo e o pavoroso mundo orwelliano já to­mando sua forma e marcando data para 1984; o livro, voltava à moda. A contracultura – em suas mil ramificações de hippies, heads, freaks e estudantes drop-outs – baratinada por um lado, entre maus perdedores no limbo e, por outro, ex-heróis, ex­contestadores agora milionários beneficiados do Sistema passan­do férias em Nassau, capitalistas sem outra energia a oferecer que carimbos, clichês e blablablás em suas musiquetas MOR (Middle Of the Road, meio do caminho, essa música popular que faz a hit machine dos States e cuja fórmula serve de modelo para o resto do mundo). No meio do pessimismo de 1974 um bookzine obscuro e meio anacrônico chamado The Savoy Book – editado por um bando literati de Manchester – trazia uma interessante reversão do Howl, de Ginsberg. Era o uivo dos enjei­tados do Sistema nos anos da Grande Decepção que foram os anos após-sonho. Escrito por J. Jeff Jones, eis o Howl Now (1974), que mal traduzi como Uivo Agora:
Vi as melhores mentes de minha geração destruídas pelo sucesso
Respeitáveis e flatulentos no rigor da moda
Choferiza­dos pelas avenidas de neon ao crepúsculo
Na voracidade do úl­timo grito celebridades caras-lindas correndo atrás da última admiração puxa-saca conectada à mídia e suas lentes fabricantes de estrelas na oficina da fama
Prósperos e aveludados, boche­chas amanteigadas e gracinhas
O papo rolando na iluminação indireta verde-jade das haciendas em Laurel Canyon
Boiando em piscinas térmicas contemplando contratos
Em lençóis de seda entregando seus cus aos agentes
Fisgados por tietes de hu­mor obscuro que rondavam os festivais
Olhos de uma exagerada sabedoria química e outros descuidos auto-indulgentes
Nos tapetes das coberturas
Expulsos dos Holiday Inns por vandalismo babaca tipo grafitar abobrinha em telas de tevês coloridas
E de­pois cagar de medo nos estúdios de gravação
Por estarem torrando o dinheiro da companhia
Enquanto o talento finalmente ia embora
E o terror atravessava as paredes
E a obscuridão os le­vava daqui para sempre...
(...)
Certa vez perguntaram a Mitchum o que é que ele fazia, que tipo de ginástica, para manter a forma; ele respondeu: “Mando uma boa fumaça pra cuca, me deito, relaxo, fecho os olhos e sonho que estou fazendo ginástica.” Décadas depois, al­guém perguntou se ele já se sentia decadente. “Desde que me lembro, sempre fui decadente.”  respondeu o homem. São des­ses diz-que-diz-ques que se fazem lendas e heróis. E agora, na WET, o rapaz quer saber de Mitchum se ele tem heróis. E ele responde: “Claro, o pobre filho da puta com a marmita debai­xo do braço que vai pro trabalho todo dia e odeia ter que fazê-­lo.”
Voltando à ALMA BEAT, em 1969 Burroughs respondeu a uma pergunta formulada por Daniel Odier, que queria saber de Bill qual a relação entre ele e o movimento beat, e qual a impor­tância literária desse movimento. William S. Burroughs respon­deu:
“De modo algum me associo ao movimento, e nunca me associei, nem com seus objetivos nem com seu estilo literário. Tenho alguns amigos íntimos no movimento: Jack Kerouac e Allen Ginsberg e Gregory Corso. Eles são meus amigos há muito tempo, mas sempre fizemos coisas diferentes, tanto na literatura quanto na vida. Dificilmente você encontrará quatro escritores mais diferentes, mais distintos. Trata-se mais de um caso de jus­taposições que... associação de estilos literários ou de outros ob­jetivos. A importância literária desse movimento? Eu diria que a importância literária do movimento Beatnik talvez não seja tão óbvia quanto sua importância sociológica... de ter transformado e populado o mundo com beatniks. Quebrou todos os tipos de barreiras sociais tornando-se um fenômeno mundial de impor­tância apavorante. Os beatniks se mandam pra qualquer lugar tipo África do Norte e assumem que a maneira de pensar dos árabes não é diferente da deles, basicamente, e fazem contato direto. Diferente do ponto de vista folclórico, que primeiro vê o árabe de fora, já com preconceitos sobre aquilo que o árabe pen­sa.”

2009

3 comentários:

  1. Bela: Quando li o post, lembrei do "Mangue Beat" grupo musical que surgiu nos anos 90 em Recife liderando por Chico Science, ele faleceu tragicamente em um acidente de carro. Eles faziam uma mistura de som bem legal. Achei bem interessante o trabalho. Parabéns!!!

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  2. Os Beats não vieram trazer a paz, mas a espada. hehehe Sou eu querida, o Emanuel Régis; valeu pelo post, mesmoquenãome cite e mostre apenas um lado da coisa bj

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  3. Ah cara, foi muito legal. Acho que o melhor evento do Literatura em Revista que já teve.
    Se tivesse sido mais divulgado, com certeza teria lotado o auditório, meus amigos que ficaram loucos(novidade -.-) pq perderam.

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