PANAPLÉIA

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Bem-vindo(a) ao Laboratório de Autoria de Panapléia! À esquerda das postagens, estão meus textos divididos em categorias e temas. À direita, indicações de blogs e as mídias sociais. No rodapé, mimos felinos e os créditos do blog. Boa leitura!

MERDA(DO) DE TRABALHO

“A felicidade dos outros é impossível de se aguentar por muito tempo.” François Sagan

Sempre levo um livro de bolso comigo para onde vou. Ontem, numa fila de banco, aproveitei para ler o “De Mulheres, sobre tudo” da Marina Colasanti (Ediouro) que comprei na Bienal por uma pechincha. Sou fã desta grande “mulhescritora” e de outras grandes fêmeas que aparecem no livro com suas frases de efeito. Uma citação da Henriqueta Brieba serve perfeitamente para o momento profissional que estou vivendo:

“Quanto mais colaboro para meu colega brilhar, mais apareço também. O Teatro é um jogo.”

Não estou trabalhando no Teatro no momento, mas tenho descoberto que o mercado de trabalho é muito mais teatral do que todos os palcos que conheci. É nele que as pessoas fazem caras e bocas o tempo inteiro, se escondem atrás de muita maquiagem e de figurinos bizarros, decoram textos, bancam os mocinhos ou os herois. Lembro um tempo feliz em que os colegas de trabalho davam rasteiras no outro para se promover ou para ganhar um tapinha nas costas, hoje os tapetes são puxados por pura diversão. É divertido ver o outro se estatelar no chão, ser derrocado, mesmo que ninguém ganhe um centavo por isso.

Estive analisando os lugares onde já trabalhei e... Caramba! Como eu atraio confusão! É algo realmente impressionante! “Eu sou um alvo tão fácil que até quem tem pouca pontaria ou até quem não tem pontaria nenhuma consegue me acertar” – como diria a inesquecível Maysa.




O panapleu me alertou para minha ingenuidade: “Colega de trabalho não é amigo. Confiança é uma faca de dois gumes e questão de circunstância.” Não retruquei porque o considero um dos caras mais inteligentes que conheço, mas fiquei incomodada com aquilo. O que leva colegas de mesa a amarem a mesma profissão, derramarem o suor pela mesma causa, passarem o dia quase todo juntos e serem muitas vezes inimigos declarados?

Por um tempo conclui que não adiantava mais mudar de emprego porque em qualquer lugar que trabalhasse cairia em alguma cilada; passei outra temporada achando que a culpa era minha, até que a amiga Orlete Xenofonte me advertiu que “ninguém atira pedra em árvore que não dá frutos”; e recentemente, tenho me perguntado como posso contribuir para a melhoria ética do mercado de trabalho. Sim, porque o MT virou um inferno no ar-condicionado.

Hoje expliquei para Déa – minha amiga de adolescência – que alguns destes profissionais me lembram uma gata de rua que tivemos. Mamãe batizou a infeliz de “Sherazade”, mas a felina provocou tanta confusão com nossos outros gatos que acabou sendo expulsa. Uma de suas características era rosnar feito um cão feroz, e rosnava ainda mais durante as refeições. Costumávamos dizer que “ela só comia brigando”. Provavelmente, pela fome que enfrentou nas ruas, só mastigava olhando de soslaio, pronta para o ataque e consequentemente, nunca se alimentava bem. O mais interessante é que também rosnava para nós como se fôssemos tomar a ração dela. Eis o ponto crucial: alguns profissionais só trabalham rosnando para o colega (que às vezes por ter outra formação, nem poderia ocupar o mesmo posto). Já fui perseguida por professores de disciplina diferente da minha. Então, se ele ou ela não pode ocupar minha vaga, por que infernizar minha vida?

Posso falar com propriedade da Educação. O mais vergonhoso de tudo é descobrir que os educadores contrariam o título que carregam com atitudes mesquinhas, torpes, medíocres e invejosas. Putz! É esse povinho que vai “formar” as futuras gerações? O mundo está fudido – desculpe, mas no meu idioma não encontrei outra palavra que expressasse minha indignação!

Cheguei num ponto que escondo das pessoas que tive tantos projetos aprovados para tal edital, que fui convidada para ministrar uma palestra/curso em respectivo lugar ou contratada para produzir tal evento literário. Mesmo assim, eles ficam sabendo pela própria divulgação dessas atividades e acabo sendo acusada de “me achar” ou “querer ser”. Não, não! Eu não me acho porque não estava perdida, e também não “quero ser” porque simplesmente SOU uma profissional que não tem medo de mostrar a cara e correr meus riscos. Fico horrorizada por viver cercada de mentalidades tão degradantes! Aproprio-me das palavras do Kurt Cobain: "eles riem de mim porque sou diferente, eu rio deles porque são todos iguais."

No orkut da Aíla Sampaio, professora e poetisa (quando eu crescer serei igualzinho a ela), li a seguinte citação de Friedrich Nietzsche: "Quanto mais nos elevamos, menores parecemos aos olhos daqueles que não sabem voar." Nunca perguntei, mas minha linda amiga deve ter tido um forte motivo para usar essa citação em seu perfil. Conversando com o amigo e músico Carlinhos Perdigão – descobri a receita de sobrevivência profissional dele: “É melhor incomodar os acomodados do que ficar incomodado por não me realizar. O barato (ou caro) da coisa é ser narrador, e não apenas personagem.” Tanto no meu caso como no dele, vivemos uma espécie de “limbo profissional”. Quando estamos entre educadores somos os “lunáticos artistas”, entre os artistas somos os “educadores alienados”. Ou seja, incomodamos sempre. É bom saber que não fomos segregados sozinhos.

Já tomei conhecimentos de comentários, ou melhor, aberrações (proferidas curiosamente sempre na minha ausência) do tipo:

Legenda: FP não é Fernando Pessoa; é fofoqueiro de plantão pra não dizer fila da puta.

FP: Não sei pra que ela trabalha tanto... Só pra morrer cedo?
PI: Melhor viver por pouco tempo do que existir por muito tempo.
FP: Ela só vive viajando e diz que é a trabalho.
PI: A trabalho. Sempre. Turismo sexual. (Desculpem, não resisti... kkkk.)

FP: Eu não sei como ela consegue ensinar em tantos lugares.
PI: Trabalhando enquanto os outros me vigiam.

FP: Todos os dias ela chega atrasada com alguma desculpa esfarrapada.
PI: Impressionante como nunca fui demitida por isso. Definitivamente sou insubstituível!
FP: Os alunos só não percebem os defeitos dela porque são cegos.
PI: Talvez eu devesse começar a dar aula em braile.

FP: Ela só vive doente e de atestado.
PI: Na verdade, são muitos veterinários me presenteando com atestados. Quando algum me amar de verdade ganharei minha aposentadoria por invalidez.

FP: Ela devia pedir exoneração da sua vaga já que trabalha em outras instituições.
PI: Tenho que perder essa mania horrorosa de passar em todo concurso público, seleção e edital.

FP: Com tanto pai de família desempregado ela devia largar algum emprego para dar oportunidade aos outros.
PI: Enquanto eu me capacitava para somar conhecimentos, eles fodiam para multiplicar as bocas em casa e agora a culpa é minha. Preciso começar a distribuir preservativos com os desempregados.
No último final de semana, trabalhei no sábado manhã-tarde-noite e domingo manhã-tarde, correndo entre três empregos diferentes. Quando fui para Missa das 19h me deparei com a visita pastoral do bispo e a celebração só terminou às 21h. Cheguei em casa tão exausta que me deitei com a roupa que tinha ido à igreja numa pontinha da cama (a outra parte estava coberta de papéis) e disse para minha sobrinha que levantava logo para almoçar (isso mesmo, almoçar). Acordei às 5h da madru porque o sol já clareava meu quarto. Fico me perguntando como esse fato poderia ser distorcido pelos FP: "ela é tão esnobe que só dorme de vestido social longo".

O melhor que posso fazer por todos os FP acima citados é dar-lhes um gato de presente para que eles tenham sete vidas para cuidar e deixem a minha em paz. Tem gente que chama isso de INVEJA, eu defino como absoluta falta do que fazer. PQP... como o ócio pode ser destrutivo! Esses desocupados bem que podiam aprender a blogar para o relógio voar na frente deles.

Outro dia, ouvi uma criatura absolutamente antiética usar o seguinte argumento: “Você sabe como são as pessoas, na Educação é sempre assim.” Acho que eu vou vomitar minha ração para gatos... Esse lodo se chama Educação e eu devo me acostumar com isso? Chega! Não sou mais professora! Apenas “estou professora” – como diz minha amiga Ana Kelen.

Algumas pessoas condenam o formato do Big Brother Brasil por incentivar a concorrência desleal – eu sou uma que não suporto aquilo. Pelo menos, os “grandes irmãos” estão se engalfinhando por dinheiro, fama, prêmios. Pior ainda é existir nas empresas os mesmos paredões e a mesma hostilidade a troco de nada. Qual foi o demônio que se apossou de nossos profissionais para banir a ética e regras de boa convivência?

Tive um arrepio no último capítulo da novela “A Favorita”, quando Flora – personagem de Patrícia Pillar – disse que nunca tinha admirado alguém mais do que a Donatela – Cláudia Raia. O diabo é quem quer ser admirado (e perseguido) daquele jeito. As famílias brasileiras ainda veem Flora e se escandalizam com tanta maldade em troca de alguns milhões de dólares. E quem está seguindo os mesmos passos sem nenhum centavo em vista? Quero mais Floras no mercado de trabalho. Sim, psicopatas com inteligências criminosas, que cometam assassinatos hediondos para efetuarem golpes milionários. Serial killers são bem mais interessantes e podemos nos livrar deles ao desmascará-los – ainda seremos os heróis.

E como nos livraremos dos serial-mesa-ao-lado? O que eles fazem é imoral, mas é legalizado. Fiquei sabendo que um funcionário sugeriu ao patrão que cortasse o ponto da colega por faltar alguns dias após o assassinato do irmão. Felizmente, o patrão não concordou. Fica a pergunta: para onde iria o dinheiro do ponto cortado? Ficaria na própria empresa. Assim sendo, o que o socó ganharia?

Enquanto escrevo este texto, em alguma sala de entrevista, uma bem apessoada candidata apresenta seu perfil profissional: “Minha maior realização? Depois que assumi o Departamento os problemas começaram a desaparecer, um por um. Meu nome? Lucrecia Bórgia!”
PS sobre PS: O amigo Pedro Salgueiro frescou um bocado quando me viu na Bienal Internacional do Livro comprando "Fernão Capelo Gaivota". Eu sei o que é ser excluída do bando por arriscar novos voos...

2009

4 comentários:

  1. Izabela, sua inteligência e visão critica me assustam de tão lúcida que vc é. Muito bom tomar esses sustos que nos fazem questionar. Achar respostas é outra coisa. Mas apontar o problema já é de grande ajuda. O incrível e que qualquer pessoa com quem vc dividir a leitura desse texto, qualquer uma, vai afirmar, com a mais pura sinceridade, que não cabe a ela tal desenho. Eu mesmo, inclusive.
    Vou fazer o exercício de introspecção. Serei um destes canalhas que fodem os outros por mero deleite ou por ignorância? Em tese, digo que não. Mas isso não quer dizer muita coisa...
    Abs e grato pelo presente
    Aluisio Martins

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  2. Poxa, Aluísio, vindo de você que entende muito do riscado, isso é o que eu chamo de um Elogio. Fico feliz que tenha apreciado minha abordagem sobre um assunto que considero doloroso e delicado. Grata pela atenção e carinho!

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  3. Bela, quem não tem luz se sente ofuscado pelo mínimo raio de sol... você é uma explosão, amiga, não tem como não incomodar os medíocres que vivem na escuridão!

    Beijos, Aíla

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  4. Perfeito! Eu estava mesmo precisando ler algo assim, de alguém que pensa/critica e passa pelos mesmos fatos que eu! Parabéns Paula Izabela!!!

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