PANAPLÉIA

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Bem-vindo(a) ao Laboratório de Autoria de Panapléia! À esquerda das postagens, estão meus textos divididos em categorias e temas. À direita, indicações de blogs e as mídias sociais. No rodapé, mimos felinos e os créditos do blog. Boa leitura!

DE PAVUNA PARA ISMÊNIA

Independência – CE, 05 de setembro de 2001

Minha adorada Ismênia...

Hoje estava me lembrando de você e de como seria bom se você estivesse ao meu lado me escutando e me apoiando. A vida é engraçada... Sabia o que queria tão bem até o ano passado. Agora tudo parece tão sem lógica que por mais que tenha aprendido não foi o suficiente. Muita coisa aconteceu em minha vida que me fez amadurecer. Cheguei a conclusão de que quando chegar aos 30 estarei tão madura quanto fruta podre (em todos os sentidos!).
Pensava que não era possível as coisas piorarem... Sempre quis saber até onde eu aguentaria chegar com tanto sofrimento. Era como uma bomba que acederam o pavio e estavam só esperando explodir. Eu estava esperando explodir a qualquer segundo; mas descobri que o desejo de vingança é um combustível forte para manter o pavio do tamanho que eu quero.
Antes eu sempre tinha pena e por amor e bondade preferia sofrer a ver alguém sofrendo. Hoje, ah, minha amiga, hoje aprendi que o ódio é a melhor arma para se lutar e só agora estou conseguindo o que quero. Nada de choro e cara triste. Aprendi a engolir a dor e transformar tudo isso em riso. É dura a comparação: é como se fosse um leão fofinho, mas com garras traiçoeiras. É tanta dor acumulada, às vezes sinto o coração encolher diante de tanta ira contida e amargura guardada. Tenho medo de mim mesma, medo de não aguentar e fazer alguma besteira contra mim ou contra alguém.
As pessoas pensam que os seus problemas devem ser resolvidos, mas os meus, os meus dilemas devem esperar. Devo abrir mãos dos meus sonhos por sonhos alheios e é muito duro notar que nesse ponto eles estão vencendo.
Eu e Adrastea continuamos na mesma. Ela se tornou tão estranha para mim, que dizer mamãe já não tem nenhum significado carinhoso em minha vida. Reconhecer que não sinto nada por ela não é difícil, difícil é fazer de conta que sinto algo para convivermos. Quando estamos juntas fico simplesmente muda e surda ou então palhaça. O que me dá mais medo é quando dizem que a cada dia eu me pareço mais com ela...
Papai me decepcionou bastante. É duro ver que ele se entregou de vez ao álcool e que usa os sentimentos alheios para conseguir atenção. Quer colocar Valência para fora de casa e só fala em morrer. Por mais que eu tente me aproximar dele, já não consigo. É como se houvesse um mundo nos separando e cada vez mais nos odiamos. Não sei se foi ele que mudou ou eu que mudei, ou as duas coisas. Só sei que hoje vejo o mundo com outros olhos, com mais dureza e menos sentimentalismo.
Valência resolveu abrir uma sociedade com dois amigos. Ela veio me pedir apoio, eu mostrei os riscos. Principalmente pelo fato dela trabalhar com digitação, o outro com placa e o outro com adesivo – o que não dá o mesmo lucro e o que pode ocasionar problemas futuros. Será que eu deveria apoiá-la sem mostrar os riscos? Só agora vejo o quão imatura e egoísta ela é. Valência nunca tem tempo para me ouvir, mas eu tenho que ter sempre tempo e garra para ela.
Estou dando reforço a doze crianças, o que antes parecia suicídio hoje é até legal. Aprendi a ter paciência com as pessoas e sorrir no lugar de gritar, a brincar e fazer palhaçadas no lugar de querer matar um. Receber carinho, abraços e beijinhos de crianças que não camuflam sentimentos é maravilhoso.
Depois que comecei a Orientação, Adrastea quer que eu me mantenha. Tenho que fazer milagre com R$ 100,00 para pagar cursinho, prestação de óculos, além de outras coisas.
Vou tentar vestibular para Economia agora. Adrastea acha que se eu entrar é para se ver muito feliz e desistir de Medicina. Vou fazer uma faculdade à força e ainda pagar por ela. O que eu faço? Aguento. Eu sabia o preço, sabia que ia ser assim mesmo. Nunca me enganei em relação a isso. É a casa deles e as regras são as deles! Eu fiz a escolha: optei por ficar em casa, aguentarei as consequências.
Ganhei duas afilhadas maravilhosas. São duas meninas traquinas como qualquer outra a quem dou orientação. Sempre  achei a mãe delas corajosa por trabalhar e cuidar das filhas. Ela falava muito mal do marido que só vivia viajando e gastando com mulheres. Agora Adina acaba fugindo com o amante e deixando as filhas aqui. E Ubatã que eu pensava ser o mais irresponsável dos pais, trabalha viajando para sustentar as filhas que ficam aos cuidados do avô doente. Ele se preocupa com a educação, alimentação e vestimentas das filhas. Isso tudo me fez pensar bem sobre minhas idéias e conceitos em relação aos homens.
A mais nova é carinhosa e me fez ir à homenagem das mães porque me considera importante. Adelfa pensa que a mãe foi para São Paulo trabalhar e que vai voltar. Ela disse que tem medo de eu ir embora também. Me faz ter pena e carinho...
A mais velha, sabe da verdade e por isso está rebelde e aborrecida. Tento ganhar sua confiança. Acira está ficando mocinha, o corpo está se transformando... Quem vai ajudá-la nas dúvidas? Quem compreenderá seus medos e comprará seus absorventes ensinando a usá-los? Ela precisa de alguém do sexo feminino que lhe ajude e não posso renegar ajuda.
Elas conquistaram um pedaço do meu coração. Por isso foi emocionante ir à escola, ganhar um belo abraço recheado de beijos. Deu vontade de ser mãe... Começo a sonhar e é justamente aí que eu tenho medo. Depois do desastre com Halehale, meu coração está fechado para balanço. Estou naquela: “fica hoje, não te conheço amanhã”. Nada que me tire da meta que quero alcançar: me vingar!
Já não leio mais romances, agora só livros de Esoterismo. Se tem uma coisa que a vida me ensinou bem foi a não crer no amor e nas pessoas – você é uma das raras exceções. Sinto saudades de nossas conversas na hora do recreio. Também sinto falta do colégio, pois lá eu aprendi muito. Não só a ler e a escrever; mas a amar, perdoar, decepcionar e esperar.
Acho que já escrevi demais, o resto só pessoalmente. Ia esquecendo... Assista ao filme: Do que as mulheres gostam? Com Mel Gibson. É excelente.
Ore a Deus por mim, pois acho que Ele está com problemas auditivos para o meu lado. Você parece está mais perto Dele...
E você, como está a vida? Será que algum sortudo já conquistou o seu coração? Mande lembranças minhas aos seus. Conte-me as novidades!
Termino agora sem mais. Me despeço pedindo sua benção...
Sua afilhada: Pavuna!


| 2011 |

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