PANAPLÉIA

Minha foto
Bem-vindo(a) ao Laboratório de Autoria de Panapléia! À esquerda das postagens, estão meus textos divididos em categorias e temas. À direita, indicações de blogs e as mídias sociais. No rodapé, mimos felinos e os créditos do blog. Boa leitura!

MONOGRAFIA: AME OU DEIXE-A!

Aos meus ex-alunos


Já tenho ex-alunos cursando Mestrado – o que para mim é motivo de contentamento. Sempre encontro um deles se despenteando por causa da temida monografia. Isso me faz sorrir e lembrar daqueles mesmos rostos em pânico antes do Vestibular. Agora a crise é outra! Não é o concorrente que apavora, nem o número de vagas. O terror habita folhas em branco que deveriam estar escritas. Onde buscar inspiração? De onde virão as respostas? Consciente de que pude de alguma forma ajudá-los na hora de enfrentar uma bateria de provas, me esforçarei para amenizar esse drama atual.

O insight se deu numa manhã de sábado pelo MSN. Um ex-aluno, meu amigo como tantos outros, calouro em Letras, forçado a escolher o “tema da monografia para ontem.” Pressão absurda do professor de Metodologia do Trabalho Científico. Graças a Deus este pária da Didática não foi meu mestre!

Não me vejo como exemplo para ninguém, mesmo assim vou contar minha experiência para ilustrar. Eu queria fazer Jornalismo, mas não podia sair da minha cidade e ir estudar fora. Escolhi Letras por ser o curso que mais se aproximava do meu perfil. Na época, eu já amava poesia e tinha um “tesão” especial pelo Álvares de Azevedo. A minha idéia de monografia já estava determinada desde o primeiro semestre.

Acontece que lá pelo terceiro ou quarto semestre, reencontrei um professor que havia dirigido a escola onde cursei o Ensino Médio. O Prof. Flávio Queiróz sempre foi um ícone para mim e no seu jeito descontraído de ministrar Literatura Portuguesa fui arrebatada pelo Fernando Pessoa, por quem eu já nutria uma paixonite.

Ao fazer o levantamento bibliográfico para o projeto, passei a amar um heterônimo de todo o meu coração – Álvaro de Campos. Enfim, me rendi a um amor irracional, poderoso e inesquecível, mas efêmero. Essa relação ocupava todo o meu tempo livre (intervalos, aulas vagas, finais de semana). E como eu estava realizada! Sentia-me compreendida, viva, pulsante de paixão. Dessa tempestade amorosa, pari um fruto – mais precisamente com 25 páginas – a quem denominei O rompimento do eu-lírico com os padrões sociais nos poemas "Lisbon Revisited" (1923) e "Poema em linha reta" de Álvaro de Campos. Era o final de 2000, tive o Prof. Flávio como obstetra.

Em 2001, logo após a colação de grau, iniciei minha Especialização em Literatura Brasileira na mesma universidade. Como seguir com o meu romance se o meu amado era lusitano? Ainda pensei em encontrar um atalho para seguir com a minha história de amor.

Primeiro módulo da Especialização foi ministrado por uma doutora em poesia – a Profa. Moema D’Andréa. A mulher dava nó cego em água! Parecíamos reles seres de uma espécie bem inferior a dela. Os alunos antipatizaram com a mestra; menos eu, ficava babando e desejando “crescer” para parecer com ela algum dia. Não sei como, talvez com minhas perguntas idiotas e minha insistência imbecil, fui a única que conquistei a simpatia da professora. Também não me recordo como descobri que estava apaixonada por Drummond e confessei isso a Moema.

No mês seguinte, a doutora em contos Profa. Cristina Botelho trouxe uma caixa de livros sobre Drummond (emprestados, para xerocar e devolver) a pedido de Moema - ambas moravam em outro estado. Tal qual não foi a minha surpresa e de Rosângela Garcia (amiga que me ajudou a levar a caixa pesada à gráfica) ao descobrirmos que quase todos os livros eram em... francês. Foi um balde de água fria em meu entusiasmo!

Parece que estou fugindo do assunto, não é? Paciência e compreenderão onde quero chegar ao desenrolar este novelo.

Cristina foi meu grande trauma. Intransigente, só fazia a chamada às 22h em ponto (perdi o ônibus para minha cidade por causa dela, cheguei a chorar sem ter como ir para casa). Mandou escrever uma mini-monografia sobre o conto “Medo, Flor & Solidão” de Marcos Bagno.

Escrever por obrigação? Deixei para começar quando faltavam poucos dias para enviar o trabalho pelo correio – na época eu não tinha computador, penei para encontrar quem digitasse às pressas. Sabe lá Deus como, escrevi 25 páginas sobre aquele conto... apaixonante. Ora, ora, ora! Lá estava eu, enamorada de novo – apesar de ter relutado muito antes de me render.

Quando a Profa. Maria Matias chegou pedindo o projeto para a monografia... Quem disse que eu havia escrito uma só linha sobre o Drummond? Com o prazo batendo a minha porta, me aventurei no desconhecido Marcos Bagno - por quem nunca me apaixonei, tivemos apenas um romance de circunstância. Procurei meu obstetra, Prof. Flávio, e assim nasceu o Um estudo metafórico e onomástico dos personagens do conto "Medo, Flor & Solidão" de Marcos Bagno em 2003 (88 páginas escritas no tempo recorde de 15 dias – isso é uma outra história).

Também é uma outra história que contarei depois meu projeto de Mestrado em Literatura Brasileira com o tema: Trajetórias Femininas do "Caso do Vestido" em Carlos Drummond de Andrade até "O Vestido" de Carlos Herculano Lopes. Drummond e eu, um amor impossível que já virou um triângulo depois que me apaixonei por mais um Carlos. (Pausa para os risos. Tenho um amigo que diz que nunca me casarei porque nenhum marido suportará me dividir com tantos homens. Mais risos.)

Encontrar um tema para pesquisa é como escolher alguém para casar – foi o que eu respondi para meu amigo do MSN. Você já cruzou com milhares de pessoas, conhece algumas centenas, mantém contato com algumas dezenas, confia numa meia dúzia, mas só estará apaixonado e fará planos com uma - de cada vez, pelo menos. É como andar distraído pela rua e de repente se deparar com a criatura mais linda que seus olhos já viram. Mesmo que quem esteja ao seu lado enxergue apenas uma reles mortal com cara de foto 3 x 4 tirada na manhã da quarta-feira de Cinzas. Você começa a admirar tudo, do alto da testa ao dedão do pé. Quando a criatura abre a boca... você já fez planos de quantos filhos terão.

Monografia é tesão, tese é paixão, dissertação é amor! Ninguém deveria escolher um tema como quem entra numa loja de sapatos na infância e é obrigado a comprar o tênis que combina com a farda, com o salário do pai e com o gosto da mãe. Pesquisa não deveria carregar a obrigação de corresponder às linhas impostas pela universidade, agradar o orientador ou ser escolhida pela influência dos colegas de sala.

Pesquisa é para arremessá-lo ao orgasmo – no sentido mais amplo da palavra. Você tem que acordar lembrando, suspirar o dia inteiro, perder o sono entusiasmado pelas suas descobertas e o principal, sonhar com ela. Nessa ânsia, seu coração tem que pulsar: “pes...quisa, pes...quisa”. Sejamos francos que em muitos momentos você sentirá um ímpeto de estrangulá-la e esquartejá-la, mas os desentendimentos fazem parte das relações passionais.

O pior é escrever? Isso é um absurdo! Quem é a criatura apaixonada que estando em sã consciência não quer declarar ao mundo o seu amor? Com faixas nas ruas, fotos num blog, declarações nos sites de relacionamentos e vídeos no youtube? Experimente encomendar uma camiseta com o tema da sua pesquisa como você faria com o nome da sua paixão. Por favor, ENLOUQUEÇA!

Você não suporta as regras da ABNT? Quem disse que todo genro aprova as exigências da sogra? Seu orientador é uma lástima? Tem obstetra pior, acredite! E mesmo assim, as grávidas são obrigadas a suportá-lo por quase um ano. Nesse meio, procure com jeito que você certamente encontrará enfermeiros e enfermeiras habilidosos para estender as duas mãos – eu encontrei muitos, mas não esqueça do nome deles na hora de redigir a página dos agradecimentos.

Se alguém oferecer uma atividade lícita ou pior, ilícita (uma prova, um seminário ou até mesmo “vender” uma monografia) para substituir a sua pesquisa, saiba que você estará abrindo mão de viver um intenso amor hollywoodiano para curtir um sexo casual com um desconhecido numa noite furtiva. É isso mesmo que você deseja para sua vida? Francamente!
| 2007 |

4 comentários:

  1. Se "por falta de um grito se perde uma boiada", não custa repetir: não comprem monografias, sejam sinceros com vocês mesmos.
    Ninguém nunca morreu de estudar, se mexa!

    ResponderExcluir
  2. Gosto do seu texto e é bom lê-lo nesse momento em que não me falta amor, mas já cansa o tesão...

    ResponderExcluir
  3. paula, vc acaba de me ajudar a decidir mesmo, oqe eu qero fazer para a minha monografia! pois na minha primeira escolha, por indicaçao do orientador e passividade minha, escolhi um tema dificil, escrever cada paragrafo sem tesao ou paixao por aquilo qe estava mfazendo é muito tenso mesmo! but, a partir deste momento mesmo qe num tenha o obstetra qe desejo terei esse filho monografado com a minha cara!

    ResponderExcluir
  4. Até que enfim eu chego aqui para comentar pela primeira vez no Viver me Despenteia. rs
    Sabemos bem o que é esse tesão, essa paixão e esse amor dedicado ao TCC. kkkk Agora vou mergulhar com tudo no Mestrado e na Especialização pra sentir todos esses calafrios e agoneios de novo. Parabéns pelo post! E como comentei...quando eu crescer quero escrever assim como você, divinamente bem.

    ResponderExcluir

Caro visitante...

Se tiver dúvidas no preenchimento dos campos, selecione a opção "anônimo" e assine no final (nome, cidade e estado).
Seu comentário será moderado e aprovado (ou não, no caso de spam) através do meu e-mail pessoal.
Sua participação é muito importante para a continuidade do meu trabalho.
Grata pela colaboração despenteada!

Paula Izabela

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...