Esperei oito meses por este momento. Agora, um imprevisto insignificante e sequer tive tempo de me pentear direito.
Brasil!
Aproveitei o congestionamento para terminar de me arrumar no banco de trás do táxi.
Pátria amada,
Dentro da bolsa, o meu estojo de maquiagem e o de jóias da mamãe.
Dos filhos deste solo és mãe gentil,
Reformei um vestido plissado preto comprado para a formatura dele.
Ó Pátria amada!
A sandália foi resgatada do esquecimento.
És tu, Brasil,
Cheguei lutando com os cabelos que insistiam em continuar armados.
Entre outras mil,
O taxista tirou proveito do meu atraso.
Terra adorada
Estava nervosa demais para pechinchar.
Nem teme, quem te adora, a própria morte.
Parei na calçada, ergui os olhos para o céu em agradecimento.
Verás que um filho teu não foge à luta,
Fotógrafos e cinegrafistas ocupavam o corredor do auditório.
Mas, se ergues da justiça a clava forte,
Sem óculos, o excesso de iluminação me incomodava.
Paz no futuro e glória no passado.
– Ele chegou? – eu piscava impacientemente os cílios cheios de rímel.
E diga o verde-louro desta flâmula
Alguém me apontou uma rampa pela lateral.
O lábaro que ostentas estrelado,
Fui descendo me equilibrando nos saltos.
Brasil, de amor eterno seja símbolo
Os dois.
Salve! Salve!
Não acredito que convidou a...
Idolatrada,
Era a minha noite.
Ó Pátria amada,
Eu era a Estrela!
"Nossa vida" no teu seio "mais amores".
Eu... Era... A Estrela.
"Nossos bosques têm mais vida",
Desci lentamente.
Teus risonhos, lindos campos têm mais flores;
Desci mais.
Do que a terra mais garrida
Desci muito.
Iluminado ao sol do Novo Mundo!
O fim não foi o limite.
Fulguras, ó Brasil, florão da América,
Ele sorriu secamente segurando-a pela cintura.
Ao som do mar e à luz do céu profundo,
– Já vai começar.
Deitado eternamente em berço esplêndido,
A cerimônia era nossa!
E o teu futuro espelha essa grandeza
O que aquelazinha fazia ali?
És belo, és forte, impávido colosso,
Foi o meu projeto, o meu esforço, o meu empenho, o meu talento.
Gigante pela própria natureza,
Coloquei-o no podium comigo.
A imagem do Cruzeiro resplandece.
– Mulher sozinha não chega a lugar nenhum – ele me dizia.
Se em teu formoso céu, risonho e límpido,
Tirei-o do anonimato, partilhei meus sonhos, moldei “o competente”.
De amor e de esperança à terra desce,
Deixou-me por ela...
Brasil, um sonho intenso, um raio vívido
Trouxe-a para presenciar o quanto eu pude torná-lo bem sucedido?
Desafia o nosso peito a própria morte!
Receber o “Prêmio Anísio Teixeira” com uma fedelha do lado.
Em teu seio, ó Liberdade,
Muitos aplausos quando fomos convocados para a mesa de honra.
Conseguimos conquistar com braço forte,
Desobedecendo a ordem dos assentos, Rodrigo sentou longe de mim.
Se o penhor dessa igualdade
A garotinha, desnorteada, alojou-se em pé por trás dele.
Brilhou no céu da Pátria nesse instante.
– Quem é a Estrela?
E o sol da Liberdade, em raios fúlgidos,
Meu coração questionava sobressaltado.
De um povo heróico o brado retumbante,
A apresentadora da cerimônia anunciou a execução do Hino Nacional.
Ouviram do Ipiranga as margens plácidas...

| 2006 |
Esse texto (conto?) é o típico exemplo de samba do criolo doido. Nasceu de um momento em que ouvi o Hino Nacional cercada por bandeiradas de falta de ética. Coisas da vida...
ResponderExcluirOBRIGADA PELA VISITA!